O que é a desescolarização: O Mundo como Sala de Aula

A educação das crianças e jovens hoje é como um trem: presa aos trilhos, deve parar a cada estação no horário certo, caso contrário chegará ao ponto final com atraso. Como concluiu o educador John Holt (1), após fazer essa analogia, crianças não são trens. Elas não aprendem no mesmo tempo e sequer precisam seguir o mesmo trajeto para chegar ao destino.

O sistema educacional atual, entretanto, segue com os vagões e paradas cronometradas. A cada série, o aluno enfrenta disciplinas organizadas nas grades, aulas de 50 minutos, sinal que toca para o intervalo, provas e nota mínima. Em sequência industrial – já reparou como até mesmo os nomes usados para definir o ambiente escolar fazem alusão à rotina de uma fábrica? –, o processo de ensino formal pouco mudou nos últimos cem anos.

Desde a década de 70, entretanto, há uma corrente ideológica que acredita não haver mudança que resolva o Ensino. E a partir disso propõe uma não tão nova forma de enxergar o aprendizado, extinguindo por completo sua institucionalização. Trata-se da Desescolarização, ou Unschooling, em inglês. Trata-se da Desescolarização, ou Unschooling, em inglês.

O que é a Desescolarização?

Mais do que um conjunto de preceitos pedagógicos que regem um modelo de ensino, a Desescolarização é o total afastamento dos livros didáticos, salas de aula e testes.

É uma forma de relação com o mundo que rechaça o conceito de que não se pode aprender fora da escola e longe de especialistas. Para Jan Hunt, psicóloga norte-americana e autora de diversos livros sobre Educação, a Desescolarização não tem receita e não pode ser explicada em um passo-a-passo.

"[A Desescolarização] é baseada na confiança de que os pais e as crianças vão encontrar os caminhos que melhor funcionam para eles – sem depender de instituições educacionais, editoras ou experts que lhes digam o que fazer", afirma.

Quando um bebê está aprendendo a dar os primeiros passos, os pais logo correm para apoiá-lo nas tentativas e acalmá-lo nos tombos. "Nenhum pai atencioso diria 'Todo bebê da sua idade deveria saber andar. É bom que você consiga andar até sexta-feira!'", ironiza a psicóloga em seu The Unschooling Unmanual ("O Não-Manual da Desescolarização", em tradução livre).

Por que, então, a sociedade encara os demais aprendizados de forma seriada e rigidamente controlada?

Se a Desescolarização soa um tanto radical e perigosa, vale lembrar que este é apenas um nome novo para uma prática milenar. Afinal, a maior parte da humanidade seguiu dessa forma: aprendendo com a vida.

School's out for summer;
School's out forever

Fora da escola no verão! Fora da escola para sempre!" (Alice Cooper – School's Out)

Depois de anos desenvolvendo projetos na área da Educação, com dinâmicas e ações que questionam o presente modelo de Ensino, o terapeuta Álvaro Rodrigo Silva Dantas foi colocado contra a parede por seu filho Cauê, na época com 11 anos. Descontente com a escola, como a maioria dos jovens, ele questionou: "Você criou tudo isso e eu tenho que ir à escola?" Desde então, o garoto não frequenta mais o colégio. Ele trocou a carteira escolar, provas e matérias pela liberdade de se aprofundar em seus próprios interesses, como um curso de artes e criação de games digitais, além da aprendizagem do inglês.

Em vez de tomar os trilhos de conteúdos da educação formal, Cauê segue seu próprio ritmo e encaixa o aprendizado dentro de áreas pelas quais se interessa. "Um dia fizemos uma protótipo de uma katana, um projeto do Cauê. Tivemos que acessar regras e fórmulas de geometria e matemática para poder fazer o molde e depois levá-lo até o marceneiro para cortar. E ainda tivemos uma 'aula' com ele, na hora da escolha da madeira mais adequada", conta Álvaro.

Segundo ele, a grande diferença da Desescolarização em relação ao ensino padrão é que o conteúdo está sempre relacionado a uma demanda real e nunca é imposto, de forma que não perde o sentido. Álvaro também é pai de Mel, 11 anos, e de um bebê de 6 meses, que seguem os passos do irmão na educação domiciliar.

Com livros espalhados pela casa, materiais de desenho à vontade e pais disponíveis e dispostos a ouvir e a compartilhar, Cauê e Mel são curiosos em sua essência e encontram uma oportunidade para aprender até mesmo no momento do preparo das refeições. "Toda atividade cotidiana, da rotina da família, pode ser trabalhada como aprendizagem. Cozinhar, por exemplo, é algo por que as crianças se interessam muito. É mágico, transformador, alquímico e se aprende muito sobre disciplina, ordem e planejamento na cozinha da casa", explica Álvaro.

A curiosidade inerente às crianças é o principal motor da Desescolarização. Entretanto, o motor só é funcional se, aliada à curiosidade, houver a figura do facilitador e as ferramentas adequadas disponíveis. "As crianças geralmente são muito curiosas e, como sabemos, possuem um cérebro muito plástico, que é capaz de estabelecer muito mais conexões que um cérebro adulto. Isso significa que é possível que desde muito cedo as crianças estejam aptas a aprendizagem. Porém nada disso funciona sem a relação dessa criança com o Outro, onde se estabelecem as relações afetivas", pontua Juliana Radaelli, psicóloga e doutora em Educação pela USP. Ela explica ainda que é o cuidado dos pais o responsável por possibilitar que o desejo de aprender emerja na criança. "É impossível o desejo surgir da solidão", completa.

Lugar de criança é na escola?

Se a Desescolarização traz às crianças e jovens mais autonomia, responsabilidade por suas tomadas de decisão, estímulo à criatividade e empatia, o pacote completo da prática do ensino em casa nem sempre é visto com bons olhos. "O mais complicado é sentir a força de questionamento que vem dos desconfortos das pessoas em volta, que se mantém no sistema padrão. Parece que eles se sentem traídos e, inconscientemente, direcionam uma onda de reprovação. A Desescolarização é, na verdade, um processo vivido pela família. Todos passam por uma desprogramação e é um trabalho interno diário", afirma o terapeuta.

A família de Álvaro é apenas uma entre as mais de 2.500 famílias brasileiras que optaram por tirar seus filhos da escola, segundo a Associação Nacional de Ensino Domiciliar (ANED). Esse número é difícil de ser precisado, especialmente pela questão jurídica que envolve o tema. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, toda criança e jovem, dos 4 aos 17 anos, deve estar matriculado na escola. Aos pais que não cumprem a regra, podem ser aplicadas sanções do Conselho Tutelar e investigações por parte do Ministério Público. Com isso, muitas famílias praticantes do ensino em casa têm receio de se expor, preferindo o anonimato ao risco de serem denunciadas.

Segundo Luciane Muniz, doutora em Educação pela Unicamp e autora de tese acerca da educação domicilar, "não há consenso sobre a inconstitucionalidade da educação domiciliar no Brasil; por esse motivo, vemos diferentes decisões judiciais permitindo ou não famílias brasileiras praticarem essa modalidade de educação." Desde 1994, houve sete tentativas de tornar legal o ensino domiciliar no Brasil. A questão é bastante complexa pois lida com os limites entre a liberdade pessoal e a vida em sociedade, permeando diversos aspectos legais e sociais. Embora nenhum dos projetos de Lei tenha obtido êxito, o tema tem estado com frequência na pauta do Poder Legislativo, suscitando importantes questionamentos e reflexões.

Em fevereiro deste ano, o diretor de Currículos e Educação Integral do Ministério da Educação (MEC), Raph Gomes Alves, afirmou durante o Seminário Internacional de Educação Domiciliar que há no MEC uma mobilização para que a regulamentação do ensino fora da escola seja definida. “Deve haver uma definição clara das instituições de ensino das estratégias e regras definidas para que a autorização não incorra em riscos, tais como aumento das desigualdades educacionais, aumento do trabalho infantil e falta de convivência com outros pares. Essa sugestão será encaminhada para discussão no CNE e enviada para conhecimento do STF”, afirmou ao jornal Gazeta do Povo.

Entretanto, semanas depois, em reunião com entidades ligadas a instituições de ensino, o Presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Eduardo Deschamps, frisou que a obrigatoriedade escolar continua. O principal ponto contra do CNE em relação à autorização do homeschooling está na dificuldade de fiscalizar a qualidade do ensino domiciliar. “Existem três aspectos básicos que são paradigmas na história da educação: a obrigatoriedade da matrícula, a frequência na escola e a exigência de nível superior para os docentes. Como a educação domiciliar vai lidar com isso?”, questionou a conselheira Suely Melo também à Gazeta do Povo.

Assista abaixo nosso mini documentário exclusivo, contando o caso real de uma família em São Paulo

Déborah Gerber, pedagoga e fotógrafa, recentemente precisou encarar o Conselho Tutelar e explicar o porquê seu filho (também) Cauê, de 8 anos, não está devidamente matriculado no terceiro ano do Ensino Fundamental. "Recebi o Conselho Tutelar. Fui denunciada", contou ela. Apesar de ter sido bastante direta e ter apresentado um relatório rico e completo com as razões de sua decisão, condições de vida e detalhes do dia-a- dia com o menino, agora cabe ao Ministério Público seguir com a questão.

Após deixarem a capital São Paulo, mãe e filho se mudaram para Ubatuba, no litoral paulista, onde optaram por dar início Desescolarização. "Assumi isso insegura por conta da Lei, que não permite, e por ganhar um ritmo novo; ver eu assumir mais essa responsabilidade com ele. Mas eu já conhecia o Movimento, já conhecia bastante gente do Movimento, que já está nessa vida há bastante tempo. Fui conversando com outras pessoas e fiquei segura para tomar essa decisão", conta ela, que demorou mais de dois anos pesquisando sobre o tema e entendendo se esse era, de fato, o melhor caminho para o filho e também para ela. "Em dois anos consegui comprovar isso, que ele vivia essa pressão [na escola] e isso estava travando ele", explica Déborah, que pretende seguir com a Desescolarização do filho e defender sua posição na Justiça, caso necessário.

Desde outubro de 2016, Déborah e o Cauê deixaram de lado a rotina escolar para buscar o aprendizado nos eventos do dia-a- dia. Graduada em Pedagogia e em Artes Plásticas e fã de Paulo Freire, Piaget e metodologias alternativas como a Waldorf, Déborah sempre esteve em busca de um ensino personalizado para Cauê, a fim de que o garoto pudesse se desenvolver longe da rigidez da escola padrão. Ainda em São Paulo, Cauê chegou a estudar em uma escola alternativa, mas o método ainda não era livre o suficiente, segundo Déborah. Em Ubatuba, até mesmo por morarem longe da cidade, o processo de Desescolarização foi uma escolha natural de ambos. Ela conta que a vida ficou mais orgânica, com horários mais tranquilos e com a possibilidade de explorar e desenvolver as curiosidades e interesses do menino.

Ainda atenta às Diretrizes de Ensino padrão, Déborah afirma que ainda está ajustando a forma como facilita o aprendizado do filho. "Tenho a grade curricular como norteador, mas estou disposta a ficar bem flexível a ela. No início tentei fazer algo mais formal mesmo, com horários. E aí fui me adaptando a algo mais orgânico", explica ela, que encaixa a atenção ao filho com suas atividades como professora de Fotografia e com as atividades domésticas. No dia-a- dia, até os assuntos mais banais despertam a curiosidade do pequeno e Déborah acaba aprendendo junto, nessa experiência que tem sido de duas vias. "A gente vai para o banco e tem a senha do banco, a fila. Quanto assunto se tira dali! O que é mais interessante a gente foca mais, estuda em casa, vai buscar outras coisas. Estou tendo essa percepção de entender a riqueza que é o mundo. O nosso cotidiano traz muitos temas. Eu mesma estou estudando mais", afirma.

"Cada um é pessoalmente responsável por sua própria desescolarização; unicamente nós temos o poder de fazê-lo." Ivan Illich - Sociedade sem Escolas

A Matemática é o principal assunto nas idas ao supermercado. A quantidade de dinheiro, preços e produtos são base para o aprendizado. Déborah entende que, com o tempo, o conteúdo vai ficando mais complexo, mas afirma que, por ora, as curiosidades do filho são mais que suficientes para cobrir o conteúdo indicado nas diretrizes de base. "Não sei mais pra frente. Vou me adaptar a novas fases. Na adolescência será um desafio maior", reconhece. Déborah conta ainda que deixou bastante claro para o filho que, caso ele queira voltar para a escola, isso é possível. "A gente tem que ver se isso mesmo. Daqui a pouco será adolescente, vai ser outra fase. Não é algo fechado, é necessário se adaptar. Exige um olhar e sensibilidade mais apurados para tentar entender se estamos no caminho certo", afirma.

Cauê está satisfeito com o novo ritmo de vida. O garoto mantém as amizades da escola, pratica exercícios físicos, rotinas de leitura e escrita e anda cultivando um peculiar interesse por imãs e suas aplicações. Fora da escola, sente-se menos pressionado e deixou de pensar que não era capaz ou inteligente o suficiente, sentimento que era constante na rotina escolar. O emocional da criança e do jovem é um dos principais pontos levados em conta pela família quando se opta pela Desescolarização.